Neste tabuleiro de xadrez, a rainha é profana, o rei é dúbio e o bispo faz os melhores movimentos.
HERESIA
Escolha somente um: Amor, Dinheiro ou  Consciência Tranquila?

Kiara, James e Ethan ignoram o dilema da escolha e cruzam os limites da moralidade sem remorsos. Ao se envolver com esses dois homens poderosos e controversos, a bela acompanhante de alto luxo do Brooklyn se vê implicada, não somente em relações proibidas, mas em uma trama de segredos, assassinatos e traições, em um esquema criminoso de corrupção na Igreja Católica.

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Kiara forçou seu corpo a caminhar pelo hall do condomínio, evitando contato visual com o porteiro intrometido, que ajeitou os óculos e se inclinou para frente a fim de examiná-la melhor. Quando chegou à calçada, e a luz do sol ofuscou sua visão, ela amaldiçoou tudo o que estava vivo debaixo do céu — incluindo ela própria. Se ainda estivesse escuro, poderia se esgueirar pelas sombras, e ninguém testemunharia sua tormenta.

     Corredores matutinos atravessaram seu caminho, ansiosos por desfrutar os preciosos minutos de lazer no Prospect Park antes de irem para o trabalho. Se eles tivessem tempo ou vontade de notá-la, a figura esguia dentro do casaco preto acinturado e usando saltos altos poderia encantar seus olhos. A loira dominava a arte de usar seu rosto perfeito e um guarda-roupa chique para esconder a sensação de inadequação que prevalecia dentro dela.

       Imagens desconexas se contorciam em sua mente, e ela fechou os olhos para buscar um refúgio. Encontrou, ao invés disso, a estampa dos olhos loucos do seu carrasco, satisfeito por infligir-lhe punição por seus pecados capitais.

       — O que você está olhando? — Ele empurrou o espelho com as linhas de pó branco para longe.

     A cotovelada no peito a jogou para fora da cama antes que pudesse dar uma resposta. Suas costas atingiram a mesa de cabeceira e ela caiu no chão, quebrando sua autoestima em tantos pedaços que não conseguiu forças para recolher os destroços e se levantar.

      Kiara acordou de suas memórias e cambaleou para frente, pressionando os lábios trêmulos e lutando para conter as lágrimas. Os dois lados de sua cabeça latejavam de dor, e ela sabia que uma enxaqueca não causara isso. Tocou a região dolorida e reviveu o momento em que ele a levantou do chão pelos cabelos. "Pelo menos, ele poupou o meu rosto." 

     Uma mão laranja acesa no farol do cruzamento da 8ª Avenida com a Windsor Pl a impediu de atravessar a rua. Ela se livrou da echarpe em volta do pescoço e encheu os pulmões com o ar frio do início da primavera antes de seguir em frente.

      — Olhe por onde anda, loira! — gritou o ciclista, desviando-se do caminho para evitar a colisão.

      Kiara se virou para o adolescente imprudente que quase a atingiu e viu um par de olhos tão assustados quanto os dela.

       — Você está bem, senhorita?

       — Estou bem. — Um sorriso amargo escapou de seus lábios. — Nunca estive melhor, — murmurou.

       Algo continuava a incomodando e seus sentidos a alertaram sobre os sapatos. Ela olhou com desprezo para seus saltos fúcsia, tirou-os e caminhou descalça. A dor estava consumindo seu corpo, mas não mais do que o ferimento na alma. A lesão física passaria; o abuso emocional se tornaria uma cicatriz. "Elliot. Eu preciso encontrar o Elliot." Tudo ao redor começou a girar e seu corpo pediu permissão para entrar em colapso; render-se à humilhação. "O banco... Eu posso chegar lá. Somente mais alguns passos, Kiara, só mais uns passos."

      Lágrimas escorriam por seu rosto e atraíram alguns olhares curiosos. Ela abaixou a cabeça e deu passos instáveis ​​em direção ao parque. Ignorou o homem sentado no banco e se afundou no assento, permitindo que o soluço reprimido em sua garganta assumisse o controle.

       O choro despertou a atenção do homem ao seu lado, que abriu os olhos. Os ombros da loira estavam arqueados e tremiam no ritmo de seus soluços, e olhar inquisitivo dele correu dos longos cabelos loiros até as feições delicadas do rosto jovem. O olhar dele se deteve nas mãos, hipnotizado pelo vívido tom de vinho das unhas longas, que contrastava com os dedos pálidos e sem anéis. Os olhos verde azulados deslizaram pelas pernas torneadas, e ele franziu as sobrancelhas ao ver os pés descalços.

      Ele moveu o braço em direção ao corpo ofegante; hesitou com a mão erguida no ar, e então encostou seus dedos no ombro dela, em um toque tão gentil que talvez não pudesse ser sentido. Mas a reação dela disse o contrário.

    Kiara parou de soluçar e seu corpo travou enquanto experimentava um calor, uma sensação de tranquilidade vindo de seu ombro e se estendendo por todo o seu corpo. Ela se virou e eles se entreolharam. Os olhos marejados por lágrimas exibiam um tom de azul profundo.

      O homem a confortou com um sorriso espontâneo e um olhar amável. — Posso fazer alguma coisa por você?

     — Não... Não acho que alguém possa. — Ela olhou para a igreja do outro lado da rua e enxugou as últimas lágrimas com a palma da mão. — Eu tive uma educação católica e acredito que Jesus tem compaixão por aqueles que estão perdidos, não importa a bagagem que carreguem. Quando eu olho para este templo, eu me sinto menos desprezí... Me sinto melhor.

       — Eu sinto o mesmo. Nenhum lugar no mundo pode mudar meu estado para melhor como a igreja.

     Aquelas palavras a fizeram esquecer os pensamentos negativos e prestar atenção no homem. "Ele é bonitão." Seu olhar vasculhou cada detalhe, desde o cabelo loiro escuro cortado em longas camadas até o queixo e a barba e o bigode finos, que o deixavam sexy. "Olhos expressivos. Os lábios... os lábios são desenhados." Ela reparou o olhar intenso dele estudando-a e corou, ajeitando o corpo. — Você mora aqui perto? — A curiosidade superou sua discrição habitual

       — Sim, eu moro do outro lado da rua. Cheguei há dois dias neste bairro para assumir essa paróquia.

   — Você é padre? — O olhar dela o inspecionou como o de um carcereiro supervisionando um prisioneiro.

      — Sim. Sou o padre designado para esta igreja e hoje é o primeiro dia dos meus serviços. Em quarenta minutos, irei presidir uma missa. Sentei-me aqui para serenar minha alma, encontrar a confiança que preciso.

      — Me desculpe pela minha pergunta, mas, eu não consigo evitá-la: Você não é bonito demais para ser padre?

      Ninguém jamais havia feito a pergunta assim, direta e sem pudores, embora vez ou outra, pessoas deixassem implícito que pensavam o mesmo. O canto dos lábios dele se curvou em um sorriso.

     — Eu acho que Deus não se importa com o meu rosto. Acho que ele prefere que eu seja bonito por dentro. E isso é algo pelo qual eu trabalho todos os dias.

     Kiara torceu os lábios, virou o corpo para a frente e observou as primeiras pessoas chegando para a missa.

       — Me desculpe, mas eu ainda não sei o seu nome.

      Ela o fitou por alguns segundos. — Meu nome é Kiara Campbell.

       — Prazer, Kiara. Eu sou James Eriksen.

       — James Eriksen — Ela repetiu os dois nomes sem pressa.

      — Escute... — ele olhou o relógio. — Eu preciso me preparar para a missa. Se você quiser, poderíamos conversar mais tarde. Você não gostaria de entrar?

      O olhar gelado dela o atingiu tão forte quanto o sarcasmo em sua voz. — Não perca o seu tempo comigo, padre. — Ela bateu um pé no outro, removendo fragmentos de poeira, e colocou os saltos altos. — Eu não sou digna de estar ali. — Ela se levantou e se afastou, sem olhar para trás.

 

  

     O carro forte seguia pela Williamsburg Bridge, sentido Brooklyn, e Elliot mantinha-se alerto ao exterior através da janela blindada. Os olhos fixos na rua e as mãos firmes em sua arma. Em sete anos dentro de um carro forte, ele nunca conversou com seu time nada além do necessário ao cumprimento da função. Frases curtas, ordens diretas. Seus colegas o descreviam como um homem habilidoso e atento aos detalhes. Fora do ambiente de trabalho, se referiam a ele como um amigo gentil e atencioso. Em ambas as situações, alguém com quem poderiam contar.

     Sua equipe incluía o experiente motorista Reed, que sabia como escapar de situações de perigo, tão bem quanto das minas terrestres que enfrentara no Iraque, e os ex-fuzileiros navais e especialistas em armamentos Morris e Joshua. Elliot não tinha experiência militar ou prática anterior com vigilância armada como eles, mas seu senso de responsabilidade pelo grupo e seu perfil forte fizeram dele um chefe de equipe respeitado.

     — Olha, a Kiara está ali — disse Reed, e Elliot virou a cabeça para ver a loira caminhando a passos arrastados em direção ao portão principal da sede da empresa. Ele franziu a testa e saltou do carro ao desligar dos motores, levando o malote para o escritório principal. 

    Reed o encontrou no pátio, após ele ter concluído os protocolos de entrega do malote. — Nós autorizamos a entrada dela. Ela está chorando.

        Elliot apertou os lábios e acelerou para sua sala. Ela o olhou com olhos vermelhos e inchados.

       — Desculpe por eu vir ao seu trabalho. Eu deveria ir para casa, mas acabei vindo até aqui porque estou tão... — Ela abaixou a cabeça.

       — Não tem problema. O que aconteceu?

        Ela desabotoou o casaco e os hematomas contaram sua história.

       — Quem fez isso?

       — Um cara de Wall Street.

       — Bastardo — murmurrou um dos  homens.

       Elliot olhou para os companheiros e novamente para Kiara. — Só me diga o nome dele.