Um testamento com regras estranhas. Uma mansão em um local isolado. Três primas que se odeiam. E um assassino.
O TESTAMENTO DA TIA MAE
Lila, uma brilhante gestora de investimentos de Wall Street enfrenta um momento pessoal conturbado,  quando é informada do falecimento de sua tia, Mae. Mencionada no testamento, Lila precisa disputar a herança com Veronica e Kristin, suas duas primas inescrupulosas. Confinadas em uma mansão isolada nos Alpes Austríacos, elas participam de uma competição, com regras obscuras e jurados pouco confiáveis. Para piorar, um assassino está entre eles, eliminando um a um. Sobrará alguém para herdar a fortuna? 
AVISO LEGAL: Todos os manuscritos possuem registro de Direitos Autorais.

1

Lila sorveu o último gole de whisky, flertou com o vazio abaixo de seus pés e se lembrou do abismo de Nietzsche. Sim, o abismo a olhara de volta e, desta vez, sorrira. Seus lábios ensaiaram um sorriso. — Se eu me jogasse, seria o fim da minha agonia ou somente o começo?

    — Dizem que suicidas não vão para o céu. — Oliver arqueou uma sobrancelha maliciosa, como costumava fazer para provocá-la.

      As pernas dela abraçaram a mureta e os olhos castanhos se estreitaram sobre ele. — Então seria melhor eu jogar você. Eu seria apenas uma assassina com chance de redenção, e você pagaria pelo mal que me causou.

     Oliver tomou um gole e encheu os copos novamente. — Esta hipótese é improvável porque, apesar de carregar dentro de si a costumaz frieza dos executivos de Wall Street, você tem um bom coração e ainda guarda dentro dele um resquício de afeição por mim. Além disso, você iria emperrar todo o trânsito da Rua 72 e, consequentemente, o tráfego da região de Upper East Side. E não há nada que você odeie mais do que congestionamento.

     A gargalhada de Lia quebrou o silêncio da cidade ainda sonolenta. — E o conselho do condomínio certamente iria solicitar uma ordem judicial para a minha expulsão.

      — Eles podem fazer isso?

      Ela balançou a cabeça afirmativamente. — Em circunstâncias extraordinárias, o judiciário pode intervir quando o comportamento de um morador estiver afetando todo o ambiente do condomínio.

     Ele estalou a língua — Isso não existe. De qualquer forma, é melhor você planejar outra vingança contra mim pois você adora morar neste prédio.

      O olhar dela se voltou novamente para baixo e o trajeto do 18º andar até o chão pareceu infinito. Oliver a tocou e sua mão forte acariciou a pele delicada, do antebraço até a ponta dos dedos. Ela se voltou para ele e perdeu-se nos lábios que despertavam nela uma atração magnética. Fechou os olhos e reprimiu o desejo, o grito entalado na garganta, e a vontade de implorar para que ele dissesse que tudo não passava uma brincadeira de péssimo gosto e que o sabor amargo da realidade poderia ser dissipado com mais uma dose de Macallan. Ou com um beijo.

      — Você sabe por que você vai sobreviver a isso tudo?

      — Não tenho ideia.

    — Porque você é uma mulher invulnerável. — Ele virou o braço de Lila e a acariciou os números tatuados próximos ao seu pulso. — Nas suas veias, corre o sangue daqueles que enfrentaram com dignidade as piores atrocidades às quais um povo poderia ter sido submetido. E as gerações vindouras não buscaram vingança pela fome e tortura impostas aos seus ancestrais, tampouco usaram a memória dos gritos advindos das fornalhas ou das cinzas dos campos de genocídio como motivo para espalhar ódio pelo mundo. Ao contrário, com mansidão, vocês se apossaram do sofrimento e da injustiça e os moldaram como a base de um espírito resiliente e altivo. Esta marca que você carrega na pele, Lila, é mais do que uma homenagem, é uma poesia que simboliza a essência da força e da graciosidade que eu tanto admiro em você.

     Ela apertou os lábios, incapaz de evitar a lágrima que escorreu por seu rosto. Oliver a secou com um beijo, e ela fechou os olhos, empurrando o corpo na direção dele, lutando para prolongar o contato.

      — Eu posso ficar no apartamento pelo tempo que você precisar.

Lila endireitou o corpo, enrugou o nariz em uma careta e balançou a cabeça em negativa. — Não existe um ditado que diz que é melhor cortar o mal pela raiz? — Ambos riram — Eu vou ficar bem.

     — Você é quem sabe. Caso mude de ideia, é só me dizer. — Ele a beijou no rosto. —  Preciso tomar banho para ir ao hospital. Vamos descer desta mureta. Já amanheceu e daqui a pouco alguém vai ligar para o 911 dizendo que há um casal de suicidas no terraço de uma cobertura.

      Ele desceu e a enlaçou em seu seus braços. Seus olhares se cruzaram e Lila se sentiu engolfada por uma onda de sentimentos conflitantes. Oliver saiu apressado para o quarto, e ela se moveu lentamente para o interior do apartamento. Seu olhar vagueou das camisas dele, dobradas sobre a cama, para as duas malas dispostas no corredor do closet. O barulho do chuveiro atraiu sua atenção e ela se esgueirou até a porta aberta, contemplando o corpo dele. Mordeu os lábios e fechando os olhos, se afastou.

     O reflexo no espelho mostrava uma mulher que ela não reconhecia. Era algo além do cabelo oleoso e dos círculos amarronzados por baixo dos olhos. Como pudera envelhecer cinco anos em dois dias? Seus passos pesados a levaram até a cozinha, onde mordeu um pedaço de pizza frio e esquecido na caixa sobre a bancada. Forçou-se a engolir a massa que, assim como tudo ao redor, perdera o sabor, a textura e o viço. O som interfone ecoou três vezes pela cozinha até que seus sentidos a alertassem.

       — Sim?

      — Senhorita Demski, me desculpe por incomodá-la tão cedo. Eu estava decidido a aguardar até as oito horas, mas tenho aqui na portaria um advogado, do escritório Schawrz e Associados, que alega ser imperativo entregar-lhe em mãos uma correspondência a qual, segundo ele, é urgente e de relevante interesse pessoal.

      —  Entregar pessoalmente?

      — Sim, senhorita. Ele precisa da sua assinatura.

      — Tudo bem, senhor Anderson. Ele pode subir, desde que você tenha checado a identificação dele.

      — Certamente que sim, senhorita. Irei autorizar a subida dele então.

      Oliver surgiu, de jeans e camisa social, e com os cabelos ainda úmidos. — Quem é a esta hora?

      — Um advogado com uma correspondência urgente. Pode ser até a bomba de Hiroshima; eu não me importo.

      Ele riu e a abraçou. — Vou ficar com você e, se for o caso, explodimos juntos.

      Lila abriu a porta e assinou o comprovante. — Do que se trata?

    — O conteúdo é privado e eu não tenho acesso — respondeu o rapaz, jovem demais para ser um advogado.

     Ela deu de ombros e se arrastou de volta a cozinha, rasgando o envelope. Oliver comia uma maça e acompanhava a movimentação com um olhar aguçado.

     O olhar dela escaneou o papel timbrado, e uma faísca de vivacidade se ascendeu nos olhos castanhos, enquanto seus lábios curvaram em um movimento ascendente. — Finalmente, uma notícia formidável.

      Oliver estancou com a maçã na boca e ergueu as sobrancelhas.  

      Lila levantou os olhos do papel, e a cor e o entusiasmo iluminavam sua face. — A minha tia morreu.

POLÍTICA DE PRIVACIDADE

© 2020 Kathleen Macedo. Todos os direitos resevados

Macedo Malard Empreendimentos Digitais